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domingo, 5 de abril de 2015

Tokyo

Esses dias recebi dois exemplares (um pra mim, outro pra ser doado à biblioteca da UFC) do livro Presos que Menstruam, da Nana Queiroz. 

Ainda não tive tempo de lê-lo, mas é um tema importantíssimo: mulheres encarceradas. Lembro que, quando eu era adolescente, fui ao Carandiru entrevistar algumas presas. Foi uma experiência inesquecível. Falei com mulheres que haviam sido condenadas por homicídio, todas pobres e negras, e a justificativa era a mesma: haviam matado o parceiro em legítima defesa. Eram elas, abusadas durante anos, ou eles. 
Três anos atrás, o Direito da UFRN me convidou para falar de Criminologia Feminista. Tive que pesquisar bastante para poder apresentar algo minimamente contundente. E sempre que você se aproxima daquilo que toda a sociedade quer varrer pra baixo do tapete, você aprende muito. O que mais dói na vida da maioria das presas é como elas foram abandonadas. Diferente dos homens presos, que continuam sendo visitados por esposas e filhos, as mulheres presas são largadas, esquecidas por todos. 
Por isso o livro da Nana, Presos que Menstruam, é tão relevante (ele está à venda em todas as livrarias do Brasil e também pela internet. Nana, uma pessoa que admiro, escreveu sobre sua experiência:

Há uma coisa que devo confessar antes que você decida-se a ler meu novo livro Presos Que Menstruam, da Editora Record: eu me apaixonei por uma presa enquanto viajava pelo sistema carcerário feminino do Brasil para escrever esses relatos. Não, eu não nutri uma paixão homossexual por ela, mas uma paixão na conotação mais inocente da palavra. 
Essa menina respondia por assalto a mão armada, nunca disparada, mas tinha um olhar matador. Os olhos dela me diziam que éramos iguais, que eu também tinha os meus delitos pessoais, olhos que me impediam de acusá-la de qualquer coisa. Eles me perturbavam.
Quando eu escrevia sobre ela, eu chorava. Quando eu ouvia de novo e de novo suas entrevistas, eu ficava abalada e frágil como uma criança. Corria para um canto para me esconder dos meus pensamentos.
Eu tive que parar a história de Safira pela metade para poder continuar escrevendo. Mais tarde, eu entendi que a vida dela me comovia tanto porque éramos tão parecidas, que se eu tivesse vivido a vida dela e ela a minha, seria possível que fôssemos exatamente eu e ela sentadas naquela sala, mas de lugares trocados.
Meu desejo de contar histórias de mulheres como Safira surgiu da percepção de que elas praticamente não existem para a sociedade. É comum encontrar na imprensa, na literatura e no cinema, por exemplo, as discussões mais diversas sobre os presídios masculinos, mas sinto que a mesma atenção não é dada às nossas encarceradas. E é muito importante que a sociedade conheça as histórias dessas mulheres.
Porque quando criamos empatia por nossos infratores, quando somos capazes de encontrar pontos de identificação com eles, como os muitos que encontrei com Safira, nos afastamos daquele desejo social atávico de vingança e caminhamos em direção à compreensão e à vontade de reabilitar além de punir. E acima de tudo, porque quando nos aproximamos da humanidade de nossas detentas, acabamos nos aproximando, na verdade, é da nossa própria humanidade.
O Estado também ignora que há mulheres presas no sistema. É fácil esquecer que mulheres são mulheres sob a desculpa de que todos os criminosos devem ser tratados de maneira idêntica. Mas a igualdade é desigual quando se esquecem as diferenças. É pelas gestantes, os bebês nascidos no chão das cadeias e as lésbicas que não podem receber visitas de suas esposas e filhos que temos que lembrar que alguns desses presos, sim, menstruam.
Mas, durante essas viagens ao submundo, descobri que não era apenas o governo que nos impedia de falar sobre o assunto. Tabus são mantidos, também, pelos que se recusam a falar sobre eles. E nós, enquanto sociedade, evitamos falar de mulheres encarceradas. Convencemos a nós mesmos de que certos aspectos da feminilidade não existirão se nós não os nomearmos ou se só falarmos deles bem baixinho. Assim, ignoramos as transgressões de mulheres como se pudéssemos manter isso em segredo, a fim de controlar aquelas que ainda não se rebelaram contra o ideal da “feminilidade pacífica”. Ou não crescemos ouvindo que a violência faz parte da natureza do homem, mas não da mulher?
Não que quebrar tabus seja trabalho simples de ser feito. Como dizia Dostoievski: "Nada é mais fácil do que denunciar o malfeitor, nada é mais difícil do que entendê-lo". Aprendi a verdade dessas palavras durante esta reportagem. Conheci e me relacionei com mulheres adoráveis e muito tempo depois fui descobrir que haviam matado um filho pequeno, feito parte de organizações criminosas ou colaborado para um assassinato acontecer. 
Parecia que o trabalho se dava às avessas nessas horas. E mais do que toda violência descrita aqui, escrever esse livro foi um trabalho imenso de agressão interna. Lutar contra preconceitos, esticar partes de mim à força e à custa dos meus instintos mais naturais. Eu também senti raiva. Eu também senti pena. Eu também chorei, sorri, me arrependi. Hesitei.
Impressionava-me como cada uma dessas mulheres poderia ser tão fragmentária. Algumas intercalavam momentos de bondade extrema com crueldade absurda. Sensibilidade com frieza. Loucura com sanidade. Suas histórias não pareciam ter relações de causa e consequência ou ligação lógica alguma. Decidi, então, que só havia um meio de contá-las: feitas de fragmentos desconexos, como as minhas entrevistadas.  
E o resultado foi esse livro, uma colcha de retalhos que foi costurada ao longo de quatro anos. A linha e a agulha são entrevistas, visitas aos locais descritos, livros, artigos, estudos e processos de minhas entrevistadas. O tecido é composto por trechos de vida de sete mulheres com quem convivi com mais profundidade, na oficina da Fundação "Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel" de Amparo ao Preso, onde trabalham, e de algumas outras com quem me encontrei eventualmente em minhas incursões às penitenciárias do país. 
Há também pequenos diálogos e cenas que presenciei nessas visitas, relatos de pessoas que trabalham na área, textos de presas e pequenas análises sobre o assunto. Mas, acima de tudo, esse é um romance sobre histórias reais e pretende dar a dados e números os rostos das minhas entrevistadas.
Essas mulheres fizeram estrago e recobramento dentro de mim. Gosto de pensar, é claro, que, no final, me fizeram alguém melhor e mais tolerante. Só que mais dura também. E eu também fiz alguns estragos nelas. Cutuquei os seus fantasmas, cavuquei suas feridas. Algumas vezes, elas me pediam chorando para parar de perguntar. Outras tremiam alucinadas para reconstruir uma justificativa dentro de si. E eu mexi na vida delas.
Nessas páginas, você também vai conhecer outra personagem muito especial, a Camila. Uma mulher corpulenta, mas de rosto frágil. Os olhos são castanhos esverdeados -– e não raro parecem ainda mais claros por estarem marejados. Aos 34 anos, às vezes ela parece uma menina. O seu sorriso, sua receptividade, tudo diz que está desesperada por carinho e compreensão. 
Tive muitos encontros com a Camila e os dois primeiros foram muito próximos um do outro. Antes de encontrá-la pela terceira vez, tive que me afastar por uma semana, me dedicar a outros assuntos. Quando a vi novamente, seus olhinhos pidões se encheram de lágrimas e ela me disse:
– Que bom que você voltou. Achei que tinha assustado você.
E eu a abracei, devo ter dito algo como um “claro que não” desconcertado e maternal, e senti, pela primeira vez, como a minha presença estava mudando aquelas histórias que eu contava. Que eu já tinha adquirido uma responsabilidade, ainda que pequenina, sobre a felicidade daquelas mulheres. Aquilo me surpreendeu, me alegrou, me deu medo de escrever. Desde então, parecia que cada linha que saía nestas páginas estava sendo lida por elas, como fantasmas na minha nuca. Eram minhas fiscais, minhas juradas. Um júri de sete mulheres representando milhares de outras.
E o abraço da Camila me lembrava que eu devia ser justa no relato que faria delas. Em alguns casos, até mais justa do que a Justiça havia sido. E isso me apavorou. Se decidir fazer a leitura do meu livro, então, não diga que não foi avisadx: estas são histórias de mulheres apavoradas, contadas pela mais apavorada de todas elas.


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Esses dias recebi dois exemplares (um pra mim, outro pra ser doado à biblioteca da UFC) do livro Presos que Menstruam, da Nana Queiroz. 
Ainda não tive tempo de lê-lo, mas é um tema importantíssimo: mulheres encarceradas. Lembro que, quando eu era adolescente, fui ao Carandiru entrevistar algumas presas. Foi uma experiência inesquecível. Falei com mulheres que haviam sido condenadas por homicídio, todas pobres e negras, e a justificativa era a mesma: haviam matado o parceiro em legítima defesa. Eram elas, abusadas durante anos, ou eles. 
Três anos atrás, o Direito da UFRN me convidou para falar de Criminologia Feminista. Tive que pesquisar bastante para poder apresentar algo minimamente contundente. E sempre que você se aproxima daquilo que toda a sociedade quer varrer pra baixo do tapete, você aprende muito. O que mais dói na vida da maioria das presas é como elas foram abandonadas. Diferente dos homens presos, que continuam sendo visitados por esposas e filhos, as mulheres presas são largadas, esquecidas por todos. 
Por isso o livro da Nana, Presos que Menstruam, é tão relevante (ele está à venda em todas as livrarias do Brasil e também pela internet. Nana, uma pessoa que admiro, escreveu sobre sua experiência:

Há uma coisa que devo confessar antes que você decida-se a ler meu novo livro Presos Que Menstruam, da Editora Record: eu me apaixonei por uma presa enquanto viajava pelo sistema carcerário feminino do Brasil para escrever esses relatos. Não, eu não nutri uma paixão homossexual por ela, mas uma paixão na conotação mais inocente da palavra. 
Essa menina respondia por assalto a mão armada, nunca disparada, mas tinha um olhar matador. Os olhos dela me diziam que éramos iguais, que eu também tinha os meus delitos pessoais, olhos que me impediam de acusá-la de qualquer coisa. Eles me perturbavam.
Quando eu escrevia sobre ela, eu chorava. Quando eu ouvia de novo e de novo suas entrevistas, eu ficava abalada e frágil como uma criança. Corria para um canto para me esconder dos meus pensamentos.
Eu tive que parar a história de Safira pela metade para poder continuar escrevendo. Mais tarde, eu entendi que a vida dela me comovia tanto porque éramos tão parecidas, que se eu tivesse vivido a vida dela e ela a minha, seria possível que fôssemos exatamente eu e ela sentadas naquela sala, mas de lugares trocados.
Meu desejo de contar histórias de mulheres como Safira surgiu da percepção de que elas praticamente não existem para a sociedade. É comum encontrar na imprensa, na literatura e no cinema, por exemplo, as discussões mais diversas sobre os presídios masculinos, mas sinto que a mesma atenção não é dada às nossas encarceradas. E é muito importante que a sociedade conheça as histórias dessas mulheres.
Porque quando criamos empatia por nossos infratores, quando somos capazes de encontrar pontos de identificação com eles, como os muitos que encontrei com Safira, nos afastamos daquele desejo social atávico de vingança e caminhamos em direção à compreensão e à vontade de reabilitar além de punir. E acima de tudo, porque quando nos aproximamos da humanidade de nossas detentas, acabamos nos aproximando, na verdade, é da nossa própria humanidade.
O Estado também ignora que há mulheres presas no sistema. É fácil esquecer que mulheres são mulheres sob a desculpa de que todos os criminosos devem ser tratados de maneira idêntica. Mas a igualdade é desigual quando se esquecem as diferenças. É pelas gestantes, os bebês nascidos no chão das cadeias e as lésbicas que não podem receber visitas de suas esposas e filhos que temos que lembrar que alguns desses presos, sim, menstruam.
Mas, durante essas viagens ao submundo, descobri que não era apenas o governo que nos impedia de falar sobre o assunto. Tabus são mantidos, também, pelos que se recusam a falar sobre eles. E nós, enquanto sociedade, evitamos falar de mulheres encarceradas. Convencemos a nós mesmos de que certos aspectos da feminilidade não existirão se nós não os nomearmos ou se só falarmos deles bem baixinho. Assim, ignoramos as transgressões de mulheres como se pudéssemos manter isso em segredo, a fim de controlar aquelas que ainda não se rebelaram contra o ideal da “feminilidade pacífica”. Ou não crescemos ouvindo que a violência faz parte da natureza do homem, mas não da mulher?
Não que quebrar tabus seja trabalho simples de ser feito. Como dizia Dostoievski: "Nada é mais fácil do que denunciar o malfeitor, nada é mais difícil do que entendê-lo". Aprendi a verdade dessas palavras durante esta reportagem. Conheci e me relacionei com mulheres adoráveis e muito tempo depois fui descobrir que haviam matado um filho pequeno, feito parte de organizações criminosas ou colaborado para um assassinato acontecer. 
Parecia que o trabalho se dava às avessas nessas horas. E mais do que toda violência descrita aqui, escrever esse livro foi um trabalho imenso de agressão interna. Lutar contra preconceitos, esticar partes de mim à força e à custa dos meus instintos mais naturais. Eu também senti raiva. Eu também senti pena. Eu também chorei, sorri, me arrependi. Hesitei.
Impressionava-me como cada uma dessas mulheres poderia ser tão fragmentária. Algumas intercalavam momentos de bondade extrema com crueldade absurda. Sensibilidade com frieza. Loucura com sanidade. Suas histórias não pareciam ter relações de causa e consequência ou ligação lógica alguma. Decidi, então, que só havia um meio de contá-las: feitas de fragmentos desconexos, como as minhas entrevistadas.  
E o resultado foi esse livro, uma colcha de retalhos que foi costurada ao longo de quatro anos. A linha e a agulha são entrevistas, visitas aos locais descritos, livros, artigos, estudos e processos de minhas entrevistadas. O tecido é composto por trechos de vida de sete mulheres com quem convivi com mais profundidade, na oficina da Fundação "Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel" de Amparo ao Preso, onde trabalham, e de algumas outras com quem me encontrei eventualmente em minhas incursões às penitenciárias do país. 
Há também pequenos diálogos e cenas que presenciei nessas visitas, relatos de pessoas que trabalham na área, textos de presas e pequenas análises sobre o assunto. Mas, acima de tudo, esse é um romance sobre histórias reais e pretende dar a dados e números os rostos das minhas entrevistadas.
Essas mulheres fizeram estrago e recobramento dentro de mim. Gosto de pensar, é claro, que, no final, me fizeram alguém melhor e mais tolerante. Só que mais dura também. E eu também fiz alguns estragos nelas. Cutuquei os seus fantasmas, cavuquei suas feridas. Algumas vezes, elas me pediam chorando para parar de perguntar. Outras tremiam alucinadas para reconstruir uma justificativa dentro de si. E eu mexi na vida delas.
Nessas páginas, você também vai conhecer outra personagem muito especial, a Camila. Uma mulher corpulenta, mas de rosto frágil. Os olhos são castanhos esverdeados -– e não raro parecem ainda mais claros por estarem marejados. Aos 34 anos, às vezes ela parece uma menina. O seu sorriso, sua receptividade, tudo diz que está desesperada por carinho e compreensão. 
Tive muitos encontros com a Camila e os dois primeiros foram muito próximos um do outro. Antes de encontrá-la pela terceira vez, tive que me afastar por uma semana, me dedicar a outros assuntos. Quando a vi novamente, seus olhinhos pidões se encheram de lágrimas e ela me disse:
– Que bom que você voltou. Achei que tinha assustado você.
E eu a abracei, devo ter dito algo como um “claro que não” desconcertado e maternal, e senti, pela primeira vez, como a minha presença estava mudando aquelas histórias que eu contava. Que eu já tinha adquirido uma responsabilidade, ainda que pequenina, sobre a felicidade daquelas mulheres. Aquilo me surpreendeu, me alegrou, me deu medo de escrever. Desde então, parecia que cada linha que saía nestas páginas estava sendo lida por elas, como fantasmas na minha nuca. Eram minhas fiscais, minhas juradas. Um júri de sete mulheres representando milhares de outras.
E o abraço da Camila me lembrava que eu devia ser justa no relato que faria delas. Em alguns casos, até mais justa do que a Justiça havia sido. E isso me apavorou. Se decidir fazer a leitura do meu livro, então, não diga que não foi avisadx: estas são histórias de mulheres apavoradas, contadas pela mais apavorada de todas elas.

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