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Windows XP SP3 PT-BR

sábado, 18 de julho de 2015

Tokyo

Requisitos do sistema:
RAM: 256 Mb
CPU: Intel Core / Pentium / Celeron ® / Xeon ™ , AMD Opteron K6/AMD / AMD Phenom / Turion ™ / Athlon ™ / Duron ™ / Sempron ™ 400 Mhz
VGA: 1024x768 Super VGA
HDD: 1.6 Gb
Drive: DVD-ROM
Ficha Técnica
Ano de Lançamento: 2014
Plataforma: PC
Gênero: Sistema Operacional
Fabricante: Microsoft
Formato: ISO
Tamanho: 633 MB
Arquitetura: x86-Bits
Ídioma: Português do Brasil
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A "IDEOLOGIA" DE GÊNERO DOMINANDO DEBATES

terça-feira, 14 de julho de 2015

Tokyo


Dois comentários num post que não tinha muito a ver com o assunto:

"Fora ideologia de gênero! Graças a Deus que as pessoas estão acordando e exigindo seus direitos, minha filha nasceu menina, tem hormônios femininos, querer ir contra a biologia é perversão e distorção da realidade." (Taty)


"Ah, hoje fui apresentada ao mais novo argumento da reaçada religiosa pra não permitir o esclarecimento sobre ideologia de gênero na escola: que as pobres criancinhas são 'influenciáveis' e podem 'virar gays' se forem ensinadas a respeitar homossexuais e transgêneros. Ué, mas não eram eles dizendo que meninos e meninas nascem naturalmente encaixadinhos nos estereótipos de gênero deles? 
Perigo para você e seus
filhos! E para os bichos de
estimação também!
"Que as 'diferenças' entre meninos e meninas são todas naturais, que não há nenhuma influência social no comportamento da menininha (que apanha pra aprender a fechar as pernas quando se senta) nem no do menininho que não chora quando está mal (que apanhou e sempre que tentou se expressar dessa forma ouviu um 'Cala a boca senão te dou motivo de verdade pra chorar')? Cadê essa 'natureza' toda agora, hein? O pior foi ter que ouvir essa pororoca de m*rda fermentada do meu próprio pai... mas eu já devia esperar. Conservadores religiosos, há mais de 2000 anos cagando o mundo pra geral..." (Anônima)
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"SE EU QUISESSE SEGUIR DOGMAS PROCURAVA A IGREJA"

Tokyo


A A. deixou um comentário impecável no post em que uma leitora explica por que ainda torce o nariz pro feminismo:

O depoimento retrata uma exclusão sofrida pela T. dentro de um grupo específico por ela não apresentar os pré-requisitos básicos estabelecidos por esses grupos, ou seja, é a experiência dela com determinadas pessoas que quiseram diminuí-la em sua luta. Mesmo buscando informação e conhecimento nos textos da Lola, por exemplo, ela quis expor críticas e aflições individuais para superar o problema que enfrentou e seguir em frente. Qual é o problema nisso? 
Aí a gente vai lá e taca mais pedra na pessoa. Produção de ódio.
Ah! Acho que ficou bem claro que ela não é contra outros grupos marginalizados, mas sim contra uma marginalização proposta por esses grupos aos demais. Essa é uma crítica importante. E é verdadeira. Vide a querela da transfobia das "feministas contra pirocos invasores". Movimentos por busca de igualdade e direitos não podem fazer inversão de valores e se tornarem algozes de outro grupo. Isso não faz sentido. Soa algo como, por exemplo: "Sou lésbica e o homem branco me oprime, vou descontar tudo nas mulheres que se relacionam com eles. Mesmo que elas (e às vezes até eles) me abracem e me apoiem em minha luta diária." 
O que T. sente falta na vida dela é da sororidade que tantxs falam e não praticam. Ela não torce o nariz para o feminismo como pude perceber. Ela torce o nariz para essas demandas absurdas de controle e moralidade que não respeitam o tempo e o espaço de cada um. Ela torce o nariz para a falta de acolhimento. Eu também não quero esse determinado tipo específico de feminismo para seguir um dogma igualmente massacrante ao do status quo estipulado por sei lá quem. Se eu quisesse isso eu procurava a igreja.
Só mais um ponto, essa história da maquiagem e da depilação, seja lá o que for. Eu ainda não encontrei uma crítica realmente contundente contra essas práticas. As críticas muitas vezes surgem para atacar a pessoa que possui os hábitos. Pois, se você "pertence" a um grupo de esquerda e belo dia resolve passar um batom vermelho, não tem jeito, você certamente será perseguida e ridicularizada tal como faziam as beatas de 1920 com as moças de Ilhéus e dos bordéis.
É bem chato. Se você frequenta um grupo de esquerda e grupo feminista, sempre tem um monte de regrinha para se adequar. E qual é o ponto disso? É para gente ficar igual aos estudantes de ensino médio de escola americana? É tipo uma seita do Manson? Em grupos de esquerda é assim, se você consome "coisas de mulher" você é fútil e consumista. Mas, né? Nem somos machistas. Os caras acham que comprar sei lá quantos aparelhos eletrônicos, tomar cerveja e fumar, por exemplo, não é consumismo. É o auge da subversão. 
Eu não conheço nenhum que produza a própria cerveja ou fumo de próprio punho. Você tem que seguir todo o protocolo do que elas ou eles inventaram como sendo sagrado. Eu nunca li essas coisas que inventam no Manifesto Comunista, nem no Segundo Sexo, por exemplo. Pode ser que eu tenha faltado essa aula. 
Então, pelamor, sem purismos, sem regrinhas colegiais. Estamos todos aqui usando computadores feitos com trabalho escravo. E não adianta gritar que não tem computador, usamos uma porção de outras coisas, comemos, nos vestimos, etc. Somos secularizados, século XXI, não é para voltar para as cavernas. É para mudar o jeito como as coisas são estipuladas, coisas que causam sofrimento e exclusão aos grupos marginalizados. Acreditamos que dá para ser melhor, vamos focar nisso. 
Vamos focar nas estruturas e não na companheira, tudo bem?
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"SOU GORDA. ONDE ESTÁ O MEU HARÉM?"

Tokyo


A S. deixou um comentário num post
Antes de publicá-lo, queria deixar minha solidariedade, S. Mas a dos mascus você não vai conseguir. Eles vão achar justiça divina uma gorda não ter namorado. 
Poucas coisas deixam mascus mais revoltados do que ver mulher hétero gorda com um homem (eu que o diga -- mascus passaram dois anos afirmando que meu maridão era fake. Nos últimos anos, ao se convencerem que ele existe, passaram a ameaçá-lo de morte. Porque ele é um traidor da pátria, entende? Como pode um homem amar uma mulher gorda?!). Mas vamulá com seu comentário, S.

Seria legal um post sobre mulheres que se ferram em relacionamentos ou que são ignoradas completamente. É bem diferente do mundo paralelo onde mascus vivem, no qual toda mulher pega o homem que quiser e até mesmo as gordas nojentas conseguem e eles não. Ficam revoltados com gordas transando.

Eu sou gorda e queria saber: onde é que está o meu harém? Só ganhei bullying na escola. Um grupinho me zoava há tempos, do nada um deles se diz apaixonado, seus amigos começam a me humilhar ainda mais porque ele era sarado, ele fica quietinho enquanto eles me zoam, depois escuto ele reclamando que eu era gorda e mesmo assim não queria nada com ele, quer dizer, estava me fazendo um favor e eu não quis. 
Passei o ano inteiro chorando e pensando em me matar (e essa alegria dura até hoje). Não entendi até hoje que merda foi essa.
Estranhos me zoando na rua do nada. Gordofobia para mascus não existe.
Nunca namorei, minha autoestima é quase zero, uns dois caras disseram que estavam interessados em mim, mas eu não quis nada, não consigo acreditar que alguém se interesse mesmo, pode ser mais um fdp tentando me zoar, não dá para saber, então é melhor ficar sozinha mesmo.
E se por um acaso um homem quiser uma gorda, vai ser zoado. Já vi isso na rua, uma mulher gorda chegou com um cara, pararam no ponto do ônibus, se abraçaram, comeram um troço lá, aí chegaram uns "amigos" dele. Vi que estavam de longe rindo. Assim que a mulher foi embora, caíram na gargalhada, dizendo que o cara devia estar desesperado para sair com "aquilo".
E os babacas são tão escrotos, que mesmo que te achem nojenta, pensam que são tão incríveis que você acha eles maravilhosos e gostosos. Uma vez estava na entrada do shopping conversando com uma amiga e tinha um relógio bem em frente, aqueles que têm hora e temperatura, olhava para lá para ver as horas e tinha um grupo de babacas bem perto.
Uma hora percebi que estavam rindo e olhando para minha cara, não lembro direito o que disseram, mas estavam rindo porque a gorda estava dando em cima deles?! Puta merda, isso que é arrogância, tinha diversas coisas na direção deles, mas é claro que eu só podia estar olhando para aquele bando de babacas!
A vida de todas nós é uma maravilha mesmo.
P.S.: Alguém já viu o reality Big Women Big love? Umas ficam como eu, sozinhas. E outras como desse reality parecem desesperadas para encontrar um homem que goste delas, para suprir a autoestima que elas não têm. Triste.
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ÉRAMOS MACHISTAS E MUDAMOS

Tokyo


Uma anônima fez esta provocação quando, neste post, os comentários descambaram para "existe mulher machista?":

"Se mulheres podem ser (e são) machistas, então a maioria de vocês que estão apontando o dedo para as 'mulheres machistas' estão sendo machistas aqui mesmo nesse blog? Por exemplo, quando vocês dizem que vão matar mulheres, dar um chazinho de cicuta, mas vivem passando a mão na cabecinha de machos, quando vocês dão mais atenção ou preferência a homens em detrimento de mulheres (e isso acontece direto) vocês estão sendo machistas? Pra mim isso parece ser bem machista..." (Anon)

"Eu não sou uma feminista exemplar não. 
Já falei muita idiotice, já fui muito machista, já fui homofóbica, já fui Bolsonete e tudo que vocês podem imaginar quando eu era mais nova. 
Ainda sou uma machista em desconstrução. Todos nós somos. Todos nós damos bola fora, todos nós falamos besteira, todos nós repetimos alguma piadinha ou palavra machista. Todos nós. 
A diferença é que ao invés de eu ficar me justificando quando eu falo alguma besteira, eu assumo que fiz um comentário babaca/ homofóbico/ machista/ racista, peço desculpas e tento não repetir mais. Ponto. Isso me faz ser uma pessoa melhor hoje mas com muita coisa a melhorar. 
Essa tentativa de desvirtuar o debate dizendo que não há mulher machista, mas 'reprodutora do machismo', que essas mulheres não devem ser corrigidas mas sim abraçadas, não nos leva a lugar nenhum. 
Muitos debates bons foram desvirtuados por conta disso. Muitas pautas têm ficado em segundo plano por causa disso. Eu não acho que valha a pena perder tempo com nomenclatura." (Samantha)

"Eu já fui IGUALZINHA a essas aí. Ria de piada de estupro, chamava as colegas de vagabas, me achava melhor que as outras. Eu sim era mulher de verdade! 
Só que a vida acontece, né? Eu estudei, fui atrás de informações que fizessem mais bem do que mal pra mim. 
E essas moças aí também podem. Podem mais do que eu, inclusive, já que eu não tenho acesso às informações que elas têm no curso caro que estão frequentando. Quando digo que mulher machista não merece chazinho e abraço, quero dizer que não é obrigação de feminista nenhuma dar abraço a quem está nos chamando de vagabunda. Quero dizer, se alguma delas tentasse me abraçar naquela época seria esquisito pra nós duas, não? 
Nem temos a obrigação de pegar pela mãozinha e dizer: querida, isso é um tiro no pé. Quando elas sentirem a dor e quiserem acolhimento, ok. Estaremos aqui. Enquanto elas não sentem e não querem, azar delas. A nossa luta continua, mas sem passar a mão na cabecinha de machista nenhum. Seja homem ou mulher." (Raven)

"Eu já chamei, já comparei a beleza de mulheres, como se a mais bonita merecesse mais. Já condenei por ter mais de um parceiro sexual, tudo fruto do que eu ouvia desde pequena. O blog da Lola me botou pra pensar. Eu nunca mais pensei assim, quando alguém fala esse tipo de coisa, já falo na hora pra deixar de ser machista, aprendi tanto nesse blog. Através dele, meu marido também aprendeu." (Ci)
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domingo, 5 de abril de 2015

Tokyo

Esses dias recebi dois exemplares (um pra mim, outro pra ser doado à biblioteca da UFC) do livro Presos que Menstruam, da Nana Queiroz. 
Ainda não tive tempo de lê-lo, mas é um tema importantíssimo: mulheres encarceradas. Lembro que, quando eu era adolescente, fui ao Carandiru entrevistar algumas presas. Foi uma experiência inesquecível. Falei com mulheres que haviam sido condenadas por homicídio, todas pobres e negras, e a justificativa era a mesma: haviam matado o parceiro em legítima defesa. Eram elas, abusadas durante anos, ou eles. 
Três anos atrás, o Direito da UFRN me convidou para falar de Criminologia Feminista. Tive que pesquisar bastante para poder apresentar algo minimamente contundente. E sempre que você se aproxima daquilo que toda a sociedade quer varrer pra baixo do tapete, você aprende muito. O que mais dói na vida da maioria das presas é como elas foram abandonadas. Diferente dos homens presos, que continuam sendo visitados por esposas e filhos, as mulheres presas são largadas, esquecidas por todos. 
Por isso o livro da Nana, Presos que Menstruam, é tão relevante (ele está à venda em todas as livrarias do Brasil e também pela internet. Nana, uma pessoa que admiro, escreveu sobre sua experiência:

Há uma coisa que devo confessar antes que você decida-se a ler meu novo livro Presos Que Menstruam, da Editora Record: eu me apaixonei por uma presa enquanto viajava pelo sistema carcerário feminino do Brasil para escrever esses relatos. Não, eu não nutri uma paixão homossexual por ela, mas uma paixão na conotação mais inocente da palavra. 
Essa menina respondia por assalto a mão armada, nunca disparada, mas tinha um olhar matador. Os olhos dela me diziam que éramos iguais, que eu também tinha os meus delitos pessoais, olhos que me impediam de acusá-la de qualquer coisa. Eles me perturbavam.
Quando eu escrevia sobre ela, eu chorava. Quando eu ouvia de novo e de novo suas entrevistas, eu ficava abalada e frágil como uma criança. Corria para um canto para me esconder dos meus pensamentos.
Eu tive que parar a história de Safira pela metade para poder continuar escrevendo. Mais tarde, eu entendi que a vida dela me comovia tanto porque éramos tão parecidas, que se eu tivesse vivido a vida dela e ela a minha, seria possível que fôssemos exatamente eu e ela sentadas naquela sala, mas de lugares trocados.
Meu desejo de contar histórias de mulheres como Safira surgiu da percepção de que elas praticamente não existem para a sociedade. É comum encontrar na imprensa, na literatura e no cinema, por exemplo, as discussões mais diversas sobre os presídios masculinos, mas sinto que a mesma atenção não é dada às nossas encarceradas. E é muito importante que a sociedade conheça as histórias dessas mulheres.
Porque quando criamos empatia por nossos infratores, quando somos capazes de encontrar pontos de identificação com eles, como os muitos que encontrei com Safira, nos afastamos daquele desejo social atávico de vingança e caminhamos em direção à compreensão e à vontade de reabilitar além de punir. E acima de tudo, porque quando nos aproximamos da humanidade de nossas detentas, acabamos nos aproximando, na verdade, é da nossa própria humanidade.
O Estado também ignora que há mulheres presas no sistema. É fácil esquecer que mulheres são mulheres sob a desculpa de que todos os criminosos devem ser tratados de maneira idêntica. Mas a igualdade é desigual quando se esquecem as diferenças. É pelas gestantes, os bebês nascidos no chão das cadeias e as lésbicas que não podem receber visitas de suas esposas e filhos que temos que lembrar que alguns desses presos, sim, menstruam.
Mas, durante essas viagens ao submundo, descobri que não era apenas o governo que nos impedia de falar sobre o assunto. Tabus são mantidos, também, pelos que se recusam a falar sobre eles. E nós, enquanto sociedade, evitamos falar de mulheres encarceradas. Convencemos a nós mesmos de que certos aspectos da feminilidade não existirão se nós não os nomearmos ou se só falarmos deles bem baixinho. Assim, ignoramos as transgressões de mulheres como se pudéssemos manter isso em segredo, a fim de controlar aquelas que ainda não se rebelaram contra o ideal da “feminilidade pacífica”. Ou não crescemos ouvindo que a violência faz parte da natureza do homem, mas não da mulher?
Não que quebrar tabus seja trabalho simples de ser feito. Como dizia Dostoievski: "Nada é mais fácil do que denunciar o malfeitor, nada é mais difícil do que entendê-lo". Aprendi a verdade dessas palavras durante esta reportagem. Conheci e me relacionei com mulheres adoráveis e muito tempo depois fui descobrir que haviam matado um filho pequeno, feito parte de organizações criminosas ou colaborado para um assassinato acontecer. 
Parecia que o trabalho se dava às avessas nessas horas. E mais do que toda violência descrita aqui, escrever esse livro foi um trabalho imenso de agressão interna. Lutar contra preconceitos, esticar partes de mim à força e à custa dos meus instintos mais naturais. Eu também senti raiva. Eu também senti pena. Eu também chorei, sorri, me arrependi. Hesitei.
Impressionava-me como cada uma dessas mulheres poderia ser tão fragmentária. Algumas intercalavam momentos de bondade extrema com crueldade absurda. Sensibilidade com frieza. Loucura com sanidade. Suas histórias não pareciam ter relações de causa e consequência ou ligação lógica alguma. Decidi, então, que só havia um meio de contá-las: feitas de fragmentos desconexos, como as minhas entrevistadas.  
E o resultado foi esse livro, uma colcha de retalhos que foi costurada ao longo de quatro anos. A linha e a agulha são entrevistas, visitas aos locais descritos, livros, artigos, estudos e processos de minhas entrevistadas. O tecido é composto por trechos de vida de sete mulheres com quem convivi com mais profundidade, na oficina da Fundação "Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel" de Amparo ao Preso, onde trabalham, e de algumas outras com quem me encontrei eventualmente em minhas incursões às penitenciárias do país. 
Há também pequenos diálogos e cenas que presenciei nessas visitas, relatos de pessoas que trabalham na área, textos de presas e pequenas análises sobre o assunto. Mas, acima de tudo, esse é um romance sobre histórias reais e pretende dar a dados e números os rostos das minhas entrevistadas.
Essas mulheres fizeram estrago e recobramento dentro de mim. Gosto de pensar, é claro, que, no final, me fizeram alguém melhor e mais tolerante. Só que mais dura também. E eu também fiz alguns estragos nelas. Cutuquei os seus fantasmas, cavuquei suas feridas. Algumas vezes, elas me pediam chorando para parar de perguntar. Outras tremiam alucinadas para reconstruir uma justificativa dentro de si. E eu mexi na vida delas.
Nessas páginas, você também vai conhecer outra personagem muito especial, a Camila. Uma mulher corpulenta, mas de rosto frágil. Os olhos são castanhos esverdeados -– e não raro parecem ainda mais claros por estarem marejados. Aos 34 anos, às vezes ela parece uma menina. O seu sorriso, sua receptividade, tudo diz que está desesperada por carinho e compreensão. 
Tive muitos encontros com a Camila e os dois primeiros foram muito próximos um do outro. Antes de encontrá-la pela terceira vez, tive que me afastar por uma semana, me dedicar a outros assuntos. Quando a vi novamente, seus olhinhos pidões se encheram de lágrimas e ela me disse:
– Que bom que você voltou. Achei que tinha assustado você.
E eu a abracei, devo ter dito algo como um “claro que não” desconcertado e maternal, e senti, pela primeira vez, como a minha presença estava mudando aquelas histórias que eu contava. Que eu já tinha adquirido uma responsabilidade, ainda que pequenina, sobre a felicidade daquelas mulheres. Aquilo me surpreendeu, me alegrou, me deu medo de escrever. Desde então, parecia que cada linha que saía nestas páginas estava sendo lida por elas, como fantasmas na minha nuca. Eram minhas fiscais, minhas juradas. Um júri de sete mulheres representando milhares de outras.
E o abraço da Camila me lembrava que eu devia ser justa no relato que faria delas. Em alguns casos, até mais justa do que a Justiça havia sido. E isso me apavorou. Se decidir fazer a leitura do meu livro, então, não diga que não foi avisadx: estas são histórias de mulheres apavoradas, contadas pela mais apavorada de todas elas.
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Teste teste

terça-feira, 24 de março de 2015

Tokyo

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Este "site", destinado prioritariamente aos alunos de Fátima Conti,
está disponível sob FDL (Free Documentation Licence),
pretende auxiliar quem esteja começando a se interessar por internet,
computadores e programas, estando em permanente construção.
Sugestões e comentários são bem vindos.
Se desejar colaborar, clique aqui.


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Última alteração: 21 nov 2008
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Windows XP SP3 PT-BR

Requisitos do sistema:
RAM: 256 Mb
CPU: Intel Core / Pentium / Celeron ® / Xeon ™ , AMD Opteron K6/AMD / AMD Phenom / Turion ™ / Athlon ™ / Duron ™ / Sempron ™ 400 Mhz
VGA: 1024x768 Super VGA
HDD: 1.6 Gb
Drive: DVD-ROM
Ficha Técnica
Ano de Lançamento: 2014
Plataforma: PC
Gênero: Sistema Operacional
Fabricante: Microsoft
Formato: ISO
Tamanho: 633 MB
Arquitetura: x86-Bits
Ídioma: Português do Brasil

A "IDEOLOGIA" DE GÊNERO DOMINANDO DEBATES


Dois comentários num post que não tinha muito a ver com o assunto:

"Fora ideologia de gênero! Graças a Deus que as pessoas estão acordando e exigindo seus direitos, minha filha nasceu menina, tem hormônios femininos, querer ir contra a biologia é perversão e distorção da realidade." (Taty)


"Ah, hoje fui apresentada ao mais novo argumento da reaçada religiosa pra não permitir o esclarecimento sobre ideologia de gênero na escola: que as pobres criancinhas são 'influenciáveis' e podem 'virar gays' se forem ensinadas a respeitar homossexuais e transgêneros. Ué, mas não eram eles dizendo que meninos e meninas nascem naturalmente encaixadinhos nos estereótipos de gênero deles? 
Perigo para você e seus
filhos! E para os bichos de
estimação também!
"Que as 'diferenças' entre meninos e meninas são todas naturais, que não há nenhuma influência social no comportamento da menininha (que apanha pra aprender a fechar as pernas quando se senta) nem no do menininho que não chora quando está mal (que apanhou e sempre que tentou se expressar dessa forma ouviu um 'Cala a boca senão te dou motivo de verdade pra chorar')? Cadê essa 'natureza' toda agora, hein? O pior foi ter que ouvir essa pororoca de m*rda fermentada do meu próprio pai... mas eu já devia esperar. Conservadores religiosos, há mais de 2000 anos cagando o mundo pra geral..." (Anônima)
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    A A. deixou um comentário impecável no post em que uma leitora explica por que ainda torce o nariz pro feminismo:

    O depoimento retrata uma exclusão sofrida pela T. dentro de um grupo específico por ela não apresentar os pré-requisitos básicos estabelecidos por esses grupos, ou seja, é a experiência dela com determinadas pessoas que quiseram diminuí-la em sua luta. Mesmo buscando informação e conhecimento nos textos da Lola, por exemplo, ela quis expor críticas e aflições individuais para superar o problema que enfrentou e seguir em frente. Qual é o problema nisso? 
    Aí a gente vai lá e taca mais pedra na pessoa. Produção de ódio.
    Ah! Acho que ficou bem claro que ela não é contra outros grupos marginalizados, mas sim contra uma marginalização proposta por esses grupos aos demais. Essa é uma crítica importante. E é verdadeira. Vide a querela da transfobia das "feministas contra pirocos invasores". Movimentos por busca de igualdade e direitos não podem fazer inversão de valores e se tornarem algozes de outro grupo. Isso não faz sentido. Soa algo como, por exemplo: "Sou lésbica e o homem branco me oprime, vou descontar tudo nas mulheres que se relacionam com eles. Mesmo que elas (e às vezes até eles) me abracem e me apoiem em minha luta diária." 
    O que T. sente falta na vida dela é da sororidade que tantxs falam e não praticam. Ela não torce o nariz para o feminismo como pude perceber. Ela torce o nariz para essas demandas absurdas de controle e moralidade que não respeitam o tempo e o espaço de cada um. Ela torce o nariz para a falta de acolhimento. Eu também não quero esse determinado tipo específico de feminismo para seguir um dogma igualmente massacrante ao do status quo estipulado por sei lá quem. Se eu quisesse isso eu procurava a igreja.
    Só mais um ponto, essa história da maquiagem e da depilação, seja lá o que for. Eu ainda não encontrei uma crítica realmente contundente contra essas práticas. As críticas muitas vezes surgem para atacar a pessoa que possui os hábitos. Pois, se você "pertence" a um grupo de esquerda e belo dia resolve passar um batom vermelho, não tem jeito, você certamente será perseguida e ridicularizada tal como faziam as beatas de 1920 com as moças de Ilhéus e dos bordéis.
    É bem chato. Se você frequenta um grupo de esquerda e grupo feminista, sempre tem um monte de regrinha para se adequar. E qual é o ponto disso? É para gente ficar igual aos estudantes de ensino médio de escola americana? É tipo uma seita do Manson? Em grupos de esquerda é assim, se você consome "coisas de mulher" você é fútil e consumista. Mas, né? Nem somos machistas. Os caras acham que comprar sei lá quantos aparelhos eletrônicos, tomar cerveja e fumar, por exemplo, não é consumismo. É o auge da subversão. 
    Eu não conheço nenhum que produza a própria cerveja ou fumo de próprio punho. Você tem que seguir todo o protocolo do que elas ou eles inventaram como sendo sagrado. Eu nunca li essas coisas que inventam no Manifesto Comunista, nem no Segundo Sexo, por exemplo. Pode ser que eu tenha faltado essa aula. 
    Então, pelamor, sem purismos, sem regrinhas colegiais. Estamos todos aqui usando computadores feitos com trabalho escravo. E não adianta gritar que não tem computador, usamos uma porção de outras coisas, comemos, nos vestimos, etc. Somos secularizados, século XXI, não é para voltar para as cavernas. É para mudar o jeito como as coisas são estipuladas, coisas que causam sofrimento e exclusão aos grupos marginalizados. Acreditamos que dá para ser melhor, vamos focar nisso. 
    Vamos focar nas estruturas e não na companheira, tudo bem?
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    A S. deixou um comentário num post
    Antes de publicá-lo, queria deixar minha solidariedade, S. Mas a dos mascus você não vai conseguir. Eles vão achar justiça divina uma gorda não ter namorado. 
    Poucas coisas deixam mascus mais revoltados do que ver mulher hétero gorda com um homem (eu que o diga -- mascus passaram dois anos afirmando que meu maridão era fake. Nos últimos anos, ao se convencerem que ele existe, passaram a ameaçá-lo de morte. Porque ele é um traidor da pátria, entende? Como pode um homem amar uma mulher gorda?!). Mas vamulá com seu comentário, S.

    Seria legal um post sobre mulheres que se ferram em relacionamentos ou que são ignoradas completamente. É bem diferente do mundo paralelo onde mascus vivem, no qual toda mulher pega o homem que quiser e até mesmo as gordas nojentas conseguem e eles não. Ficam revoltados com gordas transando.

    Eu sou gorda e queria saber: onde é que está o meu harém? Só ganhei bullying na escola. Um grupinho me zoava há tempos, do nada um deles se diz apaixonado, seus amigos começam a me humilhar ainda mais porque ele era sarado, ele fica quietinho enquanto eles me zoam, depois escuto ele reclamando que eu era gorda e mesmo assim não queria nada com ele, quer dizer, estava me fazendo um favor e eu não quis. 
    Passei o ano inteiro chorando e pensando em me matar (e essa alegria dura até hoje). Não entendi até hoje que merda foi essa.
    Estranhos me zoando na rua do nada. Gordofobia para mascus não existe.
    Nunca namorei, minha autoestima é quase zero, uns dois caras disseram que estavam interessados em mim, mas eu não quis nada, não consigo acreditar que alguém se interesse mesmo, pode ser mais um fdp tentando me zoar, não dá para saber, então é melhor ficar sozinha mesmo.
    E se por um acaso um homem quiser uma gorda, vai ser zoado. Já vi isso na rua, uma mulher gorda chegou com um cara, pararam no ponto do ônibus, se abraçaram, comeram um troço lá, aí chegaram uns "amigos" dele. Vi que estavam de longe rindo. Assim que a mulher foi embora, caíram na gargalhada, dizendo que o cara devia estar desesperado para sair com "aquilo".
    E os babacas são tão escrotos, que mesmo que te achem nojenta, pensam que são tão incríveis que você acha eles maravilhosos e gostosos. Uma vez estava na entrada do shopping conversando com uma amiga e tinha um relógio bem em frente, aqueles que têm hora e temperatura, olhava para lá para ver as horas e tinha um grupo de babacas bem perto.
    Uma hora percebi que estavam rindo e olhando para minha cara, não lembro direito o que disseram, mas estavam rindo porque a gorda estava dando em cima deles?! Puta merda, isso que é arrogância, tinha diversas coisas na direção deles, mas é claro que eu só podia estar olhando para aquele bando de babacas!
    A vida de todas nós é uma maravilha mesmo.
    P.S.: Alguém já viu o reality Big Women Big love? Umas ficam como eu, sozinhas. E outras como desse reality parecem desesperadas para encontrar um homem que goste delas, para suprir a autoestima que elas não têm. Triste.
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    Uma anônima fez esta provocação quando, neste post, os comentários descambaram para "existe mulher machista?":

    "Se mulheres podem ser (e são) machistas, então a maioria de vocês que estão apontando o dedo para as 'mulheres machistas' estão sendo machistas aqui mesmo nesse blog? Por exemplo, quando vocês dizem que vão matar mulheres, dar um chazinho de cicuta, mas vivem passando a mão na cabecinha de machos, quando vocês dão mais atenção ou preferência a homens em detrimento de mulheres (e isso acontece direto) vocês estão sendo machistas? Pra mim isso parece ser bem machista..." (Anon)

    "Eu não sou uma feminista exemplar não. 
    Já falei muita idiotice, já fui muito machista, já fui homofóbica, já fui Bolsonete e tudo que vocês podem imaginar quando eu era mais nova. 
    Ainda sou uma machista em desconstrução. Todos nós somos. Todos nós damos bola fora, todos nós falamos besteira, todos nós repetimos alguma piadinha ou palavra machista. Todos nós. 
    A diferença é que ao invés de eu ficar me justificando quando eu falo alguma besteira, eu assumo que fiz um comentário babaca/ homofóbico/ machista/ racista, peço desculpas e tento não repetir mais. Ponto. Isso me faz ser uma pessoa melhor hoje mas com muita coisa a melhorar. 
    Essa tentativa de desvirtuar o debate dizendo que não há mulher machista, mas 'reprodutora do machismo', que essas mulheres não devem ser corrigidas mas sim abraçadas, não nos leva a lugar nenhum. 
    Muitos debates bons foram desvirtuados por conta disso. Muitas pautas têm ficado em segundo plano por causa disso. Eu não acho que valha a pena perder tempo com nomenclatura." (Samantha)

    "Eu já fui IGUALZINHA a essas aí. Ria de piada de estupro, chamava as colegas de vagabas, me achava melhor que as outras. Eu sim era mulher de verdade! 
    Só que a vida acontece, né? Eu estudei, fui atrás de informações que fizessem mais bem do que mal pra mim. 
    E essas moças aí também podem. Podem mais do que eu, inclusive, já que eu não tenho acesso às informações que elas têm no curso caro que estão frequentando. Quando digo que mulher machista não merece chazinho e abraço, quero dizer que não é obrigação de feminista nenhuma dar abraço a quem está nos chamando de vagabunda. Quero dizer, se alguma delas tentasse me abraçar naquela época seria esquisito pra nós duas, não? 
    Nem temos a obrigação de pegar pela mãozinha e dizer: querida, isso é um tiro no pé. Quando elas sentirem a dor e quiserem acolhimento, ok. Estaremos aqui. Enquanto elas não sentem e não querem, azar delas. A nossa luta continua, mas sem passar a mão na cabecinha de machista nenhum. Seja homem ou mulher." (Raven)

    "Eu já chamei, já comparei a beleza de mulheres, como se a mais bonita merecesse mais. Já condenei por ter mais de um parceiro sexual, tudo fruto do que eu ouvia desde pequena. O blog da Lola me botou pra pensar. Eu nunca mais pensei assim, quando alguém fala esse tipo de coisa, já falo na hora pra deixar de ser machista, aprendi tanto nesse blog. Através dele, meu marido também aprendeu." (Ci)

    imagens

    Esses dias recebi dois exemplares (um pra mim, outro pra ser doado à biblioteca da UFC) do livro Presos que Menstruam, da Nana Queiroz. 
    Ainda não tive tempo de lê-lo, mas é um tema importantíssimo: mulheres encarceradas. Lembro que, quando eu era adolescente, fui ao Carandiru entrevistar algumas presas. Foi uma experiência inesquecível. Falei com mulheres que haviam sido condenadas por homicídio, todas pobres e negras, e a justificativa era a mesma: haviam matado o parceiro em legítima defesa. Eram elas, abusadas durante anos, ou eles. 
    Três anos atrás, o Direito da UFRN me convidou para falar de Criminologia Feminista. Tive que pesquisar bastante para poder apresentar algo minimamente contundente. E sempre que você se aproxima daquilo que toda a sociedade quer varrer pra baixo do tapete, você aprende muito. O que mais dói na vida da maioria das presas é como elas foram abandonadas. Diferente dos homens presos, que continuam sendo visitados por esposas e filhos, as mulheres presas são largadas, esquecidas por todos. 
    Por isso o livro da Nana, Presos que Menstruam, é tão relevante (ele está à venda em todas as livrarias do Brasil e também pela internet. Nana, uma pessoa que admiro, escreveu sobre sua experiência:

    Há uma coisa que devo confessar antes que você decida-se a ler meu novo livro Presos Que Menstruam, da Editora Record: eu me apaixonei por uma presa enquanto viajava pelo sistema carcerário feminino do Brasil para escrever esses relatos. Não, eu não nutri uma paixão homossexual por ela, mas uma paixão na conotação mais inocente da palavra. 
    Essa menina respondia por assalto a mão armada, nunca disparada, mas tinha um olhar matador. Os olhos dela me diziam que éramos iguais, que eu também tinha os meus delitos pessoais, olhos que me impediam de acusá-la de qualquer coisa. Eles me perturbavam.
    Quando eu escrevia sobre ela, eu chorava. Quando eu ouvia de novo e de novo suas entrevistas, eu ficava abalada e frágil como uma criança. Corria para um canto para me esconder dos meus pensamentos.
    Eu tive que parar a história de Safira pela metade para poder continuar escrevendo. Mais tarde, eu entendi que a vida dela me comovia tanto porque éramos tão parecidas, que se eu tivesse vivido a vida dela e ela a minha, seria possível que fôssemos exatamente eu e ela sentadas naquela sala, mas de lugares trocados.
    Meu desejo de contar histórias de mulheres como Safira surgiu da percepção de que elas praticamente não existem para a sociedade. É comum encontrar na imprensa, na literatura e no cinema, por exemplo, as discussões mais diversas sobre os presídios masculinos, mas sinto que a mesma atenção não é dada às nossas encarceradas. E é muito importante que a sociedade conheça as histórias dessas mulheres.
    Porque quando criamos empatia por nossos infratores, quando somos capazes de encontrar pontos de identificação com eles, como os muitos que encontrei com Safira, nos afastamos daquele desejo social atávico de vingança e caminhamos em direção à compreensão e à vontade de reabilitar além de punir. E acima de tudo, porque quando nos aproximamos da humanidade de nossas detentas, acabamos nos aproximando, na verdade, é da nossa própria humanidade.
    O Estado também ignora que há mulheres presas no sistema. É fácil esquecer que mulheres são mulheres sob a desculpa de que todos os criminosos devem ser tratados de maneira idêntica. Mas a igualdade é desigual quando se esquecem as diferenças. É pelas gestantes, os bebês nascidos no chão das cadeias e as lésbicas que não podem receber visitas de suas esposas e filhos que temos que lembrar que alguns desses presos, sim, menstruam.
    Mas, durante essas viagens ao submundo, descobri que não era apenas o governo que nos impedia de falar sobre o assunto. Tabus são mantidos, também, pelos que se recusam a falar sobre eles. E nós, enquanto sociedade, evitamos falar de mulheres encarceradas. Convencemos a nós mesmos de que certos aspectos da feminilidade não existirão se nós não os nomearmos ou se só falarmos deles bem baixinho. Assim, ignoramos as transgressões de mulheres como se pudéssemos manter isso em segredo, a fim de controlar aquelas que ainda não se rebelaram contra o ideal da “feminilidade pacífica”. Ou não crescemos ouvindo que a violência faz parte da natureza do homem, mas não da mulher?
    Não que quebrar tabus seja trabalho simples de ser feito. Como dizia Dostoievski: "Nada é mais fácil do que denunciar o malfeitor, nada é mais difícil do que entendê-lo". Aprendi a verdade dessas palavras durante esta reportagem. Conheci e me relacionei com mulheres adoráveis e muito tempo depois fui descobrir que haviam matado um filho pequeno, feito parte de organizações criminosas ou colaborado para um assassinato acontecer. 
    Parecia que o trabalho se dava às avessas nessas horas. E mais do que toda violência descrita aqui, escrever esse livro foi um trabalho imenso de agressão interna. Lutar contra preconceitos, esticar partes de mim à força e à custa dos meus instintos mais naturais. Eu também senti raiva. Eu também senti pena. Eu também chorei, sorri, me arrependi. Hesitei.
    Impressionava-me como cada uma dessas mulheres poderia ser tão fragmentária. Algumas intercalavam momentos de bondade extrema com crueldade absurda. Sensibilidade com frieza. Loucura com sanidade. Suas histórias não pareciam ter relações de causa e consequência ou ligação lógica alguma. Decidi, então, que só havia um meio de contá-las: feitas de fragmentos desconexos, como as minhas entrevistadas.  
    E o resultado foi esse livro, uma colcha de retalhos que foi costurada ao longo de quatro anos. A linha e a agulha são entrevistas, visitas aos locais descritos, livros, artigos, estudos e processos de minhas entrevistadas. O tecido é composto por trechos de vida de sete mulheres com quem convivi com mais profundidade, na oficina da Fundação "Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel" de Amparo ao Preso, onde trabalham, e de algumas outras com quem me encontrei eventualmente em minhas incursões às penitenciárias do país. 
    Há também pequenos diálogos e cenas que presenciei nessas visitas, relatos de pessoas que trabalham na área, textos de presas e pequenas análises sobre o assunto. Mas, acima de tudo, esse é um romance sobre histórias reais e pretende dar a dados e números os rostos das minhas entrevistadas.
    Essas mulheres fizeram estrago e recobramento dentro de mim. Gosto de pensar, é claro, que, no final, me fizeram alguém melhor e mais tolerante. Só que mais dura também. E eu também fiz alguns estragos nelas. Cutuquei os seus fantasmas, cavuquei suas feridas. Algumas vezes, elas me pediam chorando para parar de perguntar. Outras tremiam alucinadas para reconstruir uma justificativa dentro de si. E eu mexi na vida delas.
    Nessas páginas, você também vai conhecer outra personagem muito especial, a Camila. Uma mulher corpulenta, mas de rosto frágil. Os olhos são castanhos esverdeados -– e não raro parecem ainda mais claros por estarem marejados. Aos 34 anos, às vezes ela parece uma menina. O seu sorriso, sua receptividade, tudo diz que está desesperada por carinho e compreensão. 
    Tive muitos encontros com a Camila e os dois primeiros foram muito próximos um do outro. Antes de encontrá-la pela terceira vez, tive que me afastar por uma semana, me dedicar a outros assuntos. Quando a vi novamente, seus olhinhos pidões se encheram de lágrimas e ela me disse:
    – Que bom que você voltou. Achei que tinha assustado você.
    E eu a abracei, devo ter dito algo como um “claro que não” desconcertado e maternal, e senti, pela primeira vez, como a minha presença estava mudando aquelas histórias que eu contava. Que eu já tinha adquirido uma responsabilidade, ainda que pequenina, sobre a felicidade daquelas mulheres. Aquilo me surpreendeu, me alegrou, me deu medo de escrever. Desde então, parecia que cada linha que saía nestas páginas estava sendo lida por elas, como fantasmas na minha nuca. Eram minhas fiscais, minhas juradas. Um júri de sete mulheres representando milhares de outras.
    E o abraço da Camila me lembrava que eu devia ser justa no relato que faria delas. Em alguns casos, até mais justa do que a Justiça havia sido. E isso me apavorou. Se decidir fazer a leitura do meu livro, então, não diga que não foi avisadx: estas são histórias de mulheres apavoradas, contadas pela mais apavorada de todas elas.

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    Última alteração: 21 nov 2008
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